{"id":6717,"date":"2020-10-23T14:55:20","date_gmt":"2020-10-23T17:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/?p=6717"},"modified":"2020-10-23T14:55:20","modified_gmt":"2020-10-23T17:55:20","slug":"negocios-sociais-em-habitacao-uma-forma-de-ampliar-a-nocao-de-interesse-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/negocios-sociais-em-habitacao-uma-forma-de-ampliar-a-nocao-de-interesse-social\/","title":{"rendered":"Neg\u00f3cios sociais em habita\u00e7\u00e3o: uma forma de ampliar a no\u00e7\u00e3o de interesse social"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">Aglomerado da Serra, 2019 . Fonte: Arquitetos da Vila<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">por:<br><strong>Lucas J\u00f3rio<\/strong> e <strong>Wanda Foresti<\/strong><br><strong>Arquitetos da Vila<\/strong> \u2013 Belo Horizonte\/MG<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo Renato Janine Ribeiro sugeriu em seu texto \u201cUma vida social muito cara\u201d que melhorias sociais no Brasil podem encontrar um caminho mais eficaz no \u201cengate do privado e do p\u00fablico, do afeto e da raz\u00e3o\u201d, ao \u201carticular o pessoal com o social, o interesse com a pol\u00edtica\u201d. Essa articula\u00e7\u00e3o propiciaria uma vida social mais \u201cbarata\u201d, mais atraente e poss\u00edvel para agentes interessados. O pensador destaca tratar-se de um \u201ctrabalho positivo\u201d, que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-small-font-size wp-block-paragraph\" style=\"color:#6e7071\">consiste em tornar barata a vida p\u00fablica, em desonerar a vida social. Constru\u00ed-la com base na virtude \u00e9 ineficaz: poucos s\u00e3o os virtuosos. O pre\u00e7o da liberdade \u2013 de uma liberdade que no passado romano ou no futuro moderno, no s\u00e9culo XVIII, se chamar\u00e1 \u201crepublicana\u201d \u2013 agora se mostra excessivo. Da\u00ed que seja preciso construir resultados aceit\u00e1veis a menor custo. Isso se consegue investindo-se nas paix\u00f5es, para Hobbes e Espinosa, ou, no caso de Mandeville, mais explicitamente nos v\u00edcios privados.\u00b9<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, a compaix\u00e3o e a solidariedade n\u00e3o atingem significativamente nossos graves problemas sociais, n\u00e3o apenas porque esses problemas s\u00e3o estruturais, mas porque essas virtudes morais em nossos tempos s\u00e3o muito raras e custosas e geram poucos benef\u00edcios. Traduzindo: quem consegue trabalhar o dia inteiro e nas horas extras e finais de semana ainda trabalhar para melhorar a vida dos outros? Quem aproveita suas f\u00e9rias para se dedicar a uma comunidade carente? Poucos. A solidariedade \u00e9 essencial, em algumas ocasi\u00f5es pode ser salvadora, mas tem um alto custo para o indiv\u00edduo e n\u00e3o produz resultados muito significativos e duradouros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomando a liberdade de traduzir o racioc\u00ednio do fil\u00f3sofo para nosso prop\u00f3sito, dir\u00edamos que fazer um bem social como neg\u00f3cio seria fazer esse bem ser algo mais racional, menos custoso do ponto de vista do indiv\u00edduo interessado em melhorar o mundo. Fazendo um bem atrav\u00e9s de uma empresa, que precisa vender e se sustentar, me dedicarei exclusivamente a isso, terei retorno financeiro, n\u00e3o precisarei sacrificar meu tempo livre nem me debater com minha consci\u00eancia sobre uma sociedade melhor, uma vez que estarei fazendo algo por uma sociedade melhor. \u00c9 interessante notar em empreendedores sociais um aparente ofuscamento da sensibilidade social, e da parte de desconfiados a suspeita de tratar-se de pessoas aproveitadoras, exploradores de pobres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Na verdade, trabalhar contra as desigualdades \u00e9 parte da rotina de quem se lan\u00e7a em um neg\u00f3cio social, ent\u00e3o os empreendedores podem se dar ao \u201cluxo\u201d de ofuscar em si mesmos a indigna\u00e7\u00e3o, a frustra\u00e7\u00e3o, o mal-estar com nossa pobreza. Eles est\u00e3o engatando seus interesses em causas sociais e buscando canalizar uma paix\u00e3o investindo nela, fazendo dela um neg\u00f3cio. Dessa forma \u00e9 interessante entender a observa\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo de que esse engate torna a vida social mais \u201cbarata\u201d, ou seja, quem faz essa articula\u00e7\u00e3o passa a suportar mais facilmente os sofrimentos de viver em um pa\u00eds t\u00e3o desigual, na medida em que trabalha, dedica a maior parte de seus dias e esfor\u00e7os para diminuir essa desigualdade e obt\u00e9m um retorno material por isso.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pessoal, o privado, o interesse do empreendedor est\u00e1 colocado de duas formas: ele quer sofrer menos, correndo inclusive o risco de parecer algu\u00e9m que explora a pobreza, e quer ganhar o seu. Os \u201cv\u00edcios privados\u201d est\u00e3o assumidos: o interesse pelo dinheiro, pelo lucro, pelo sucesso, e o interesse por sua pr\u00f3pria paz de consci\u00eancia, por n\u00e3o sofrer tanto a culpa ou o inc\u00f4modo de ser um privilegiado em uma sociedade t\u00e3o desigual. No momento em que esses \u201cv\u00edcios privados\u201d s\u00e3o canalizados para um trabalho social, podemos ser mais eficazes, \u201cconstruir resultados aceit\u00e1veis a menor custo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Construir vida social com base em interesse, e n\u00e3o em virtude, <strong>pode dar mais resultado<\/strong>. Do ponto de vista de moradores de \u00e1reas pobres, para quem o acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos \u00e9 muito dif\u00edcil ou inexistente, o investimento virtuoso, descomprometido, volunt\u00e1rio na vida p\u00fablica \u00e9 ainda mais custoso. Aqui interessa uma observa\u00e7\u00e3o recorrente de empreendedores de neg\u00f3cios de reforma em favelas e periferias: o morador que tem acesso a uma reforma de qualidade em sua casa passa a se preocupar mais e querer cuidar de um espa\u00e7o externo \u00e0 sua casa. Ele projeta o cuidado com sua casa para fora. Atrav\u00e9s de um benef\u00edcio privado ele percebe o espa\u00e7o p\u00fablico mais pr\u00f3ximo, mais acess\u00edvel, mais perme\u00e1vel \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim podemos intervir tamb\u00e9m em outro problema observado pelo mesmo autor, que \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o entre as no\u00e7\u00f5es de \u201csociedade\u201d e \u201csocial\u201d em nosso pa\u00eds: \u201co social diz respeito ao carente; a sociedade, ao eficiente.\u201d\u00b2 Atendendo ao interesse privado de quem normalmente \u00e9 visto como mais fraco, que mais sofre as injusti\u00e7as, podemos tornar \u201cmais barata\u201d sua vontade de participar e melhorar o mundo l\u00e1 fora, pelo simples contraste entre uma cozinha nova e agrad\u00e1vel e um beco descuidado. Uma a\u00e7\u00e3o decorrente da\u00ed, de uma percep\u00e7\u00e3o de que minha bela casa merece um acesso melhor, \u00e9 mais prov\u00e1vel do que pela conscientiza\u00e7\u00e3o de que o beco \u00e9 p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Oferecendo um servi\u00e7o de qualidade a lares e fam\u00edlias desacreditados, vendendo e dando cr\u00e9dito a quem a \u201csociedade\u201d costuma fechar portas e janelas, enfim, se interessando pelos mais pobres, e n\u00e3o apenas se envolvendo ou solidarizando com eles, os neg\u00f3cios sociais <strong>rompem com o estigma<\/strong> de uma popula\u00e7\u00e3o que, por viver em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, n\u00e3o pode pagar, n\u00e3o pode negociar, n\u00e3o pode contratar, n\u00e3o pode se mexer e est\u00e1 condenada a viver \u00e0 espera de aux\u00edlios e socorro, principalmente do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>S\u00e3o bem conhecidas a import\u00e2ncia e as enormes dificuldades, o alto custo do reconhecimento e do tratamento p\u00fablico de favelas e popula\u00e7\u00f5es pobres das cidades brasileiras. A defini\u00e7\u00e3o legal dessas \u00e1reas (ZEISs) afirma que s\u00e3o \u201cespeciais\u201d e de \u201cinteresse social\u201d, mas sabemos que as interven\u00e7\u00f5es e programas voltados para essas \u00e1reas custam a se sustentar e muitas vezes se perdem rapidamente. Talvez falte a eles mais articula\u00e7\u00f5es com outros interesses, especialmente interesses pessoais de moradores. Uma ilustra\u00e7\u00e3o desse argumento seria o seguinte: uma cliente dos Arquitetos da Vila manifestou, no dia da entrega da sua reforma, o interesse em acionar a prefeitura para realizar alguma interven\u00e7\u00e3o no beco que ela avistava de sua nova cozinha. Antes da reforma a situa\u00e7\u00e3o do beco n\u00e3o a incomodava tanto.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lima.tec.br\/arquitetas\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6729\" width=\"627\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1.jpg 1920w, https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.arquitetasnomades.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/foto-slider-01-1920x1080-1-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 627px) 100vw, 627px\" \/><figcaption>Cliente dos Arquitetos da Vila. Fonte: arquitetosdavila.arq.br<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Os neg\u00f3cios sociais buscam tamb\u00e9m promover uma amplia\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de \u201cinteresse social\u201d, ao assumir e implicar novos \u201cinteresses\u201d para a constru\u00e7\u00e3o de uma vida social melhor. O tratamento das desigualdades no Brasil avan\u00e7ou ao longo do s\u00e9culo XX no sentido de um progressivo reconhecimento da natureza social dessas desigualdades. Entendemos que o surgimento e fortalecimento dos chamados neg\u00f3cios sociais no Brasil \u00e9 mais um importante marco nesse processo, uma vez que buscam \u201cbaratear\u201d e tornar cada vez mais interessante as a\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">1 RIBEIRO, Renato Janine. \u201cUma vida social muito cara\u201d. In: A sociedade contra o social: o alto custo da vida p\u00fablica no Brasil. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 151.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">2 \u201cA sociedade contra o social ou A sociedade privatizada\u201d. Op Cit, p. 21.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Imagem de capa &#8211; Fonte: Arquitetos da Vila, Aglomerado da Serra, 2019.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>CONHE\u00c7A MAIS SOBRE OS ARQUITETOS DA VILA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SITE: <strong>arquitetosdavila.arq.br<\/strong><br>EMAIL: <strong>contato@arquitetosdavila.arq.br<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile is-vertically-aligned-center is-image-fill\" style=\"grid-template-columns:auto 33%\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\" style=\"background-image:url(https:\/\/lima.tec.br\/arquitetas\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/wanda.jpg);background-position:50% 50%\"><img decoding=\"async\" width=\"244\" height=\"296\" src=\"https:\/\/lima.tec.br\/arquitetas\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/wanda.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6746\"\/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>WANDA FORESTI<\/strong><br>S\u00f3cia Fundadora respons\u00e1vel pela \u00e1rea de projetos e obras.<br>Experi\u00eancia em coordena\u00e7\u00e3o de planos e projetos de urbaniza\u00e7\u00e3o para favelas brasileiras e em servi\u00e7os de arquitetura e engenharia p\u00fablicas, com atua\u00e7\u00e3o em empresas privadas e prefeituras.<br>Vencedora do Pr\u00eamio Neg\u00f3cio Destaque no Lab Habita\u00e7\u00e3o: Inova\u00e7\u00e3o e Moradia, realizado pela Artemisia e Gerdau, 2019.<br>Graduada em arquitetura e urbanismo pelo Centro Universit\u00e1rio Metodista Izabela Hendrix.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile is-vertically-aligned-center is-image-fill\" style=\"grid-template-columns:auto 33%\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\" style=\"background-image:url(https:\/\/lima.tec.br\/arquitetas\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/lucas-1.jpg);background-position:50% 50%\"><img decoding=\"async\" width=\"251\" height=\"296\" src=\"https:\/\/lima.tec.br\/arquitetas\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/lucas-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6747\"\/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>LUCAS J\u00d3RIO<\/strong><br>S\u00f3cio Fundador respons\u00e1vel pela \u00e1rea comercial e de relacionamento com os clientes.<br>Experi\u00eancia em trabalho t\u00e9cnico social e programas de habita\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Companhia Urbanizadora e de Habita\u00e7\u00e3o da PBH (Urbel), Vallourec, PHV, Urbe Consultoria e Projetos, entre outros.<br>Vencedor do Pr\u00eamio Neg\u00f3cio Destaque no Lab Habita\u00e7\u00e3o: Inova\u00e7\u00e3o e Moradia, realizado pela Artemisia e Gerdau, 2019. Graduado e mestre em Hist\u00f3ria pela UFMG.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aglomerado da Serra, 2019 . Fonte: Arquitetos da Vila por:Lucas J\u00f3rio e Wanda ForestiArquitetos da Vila \u2013 Belo Horizonte\/MG O fil\u00f3sofo Renato Janine Ribeiro sugeriu em seu texto \u201cUma vida social muito cara\u201d que melhorias sociais no Brasil podem encontrar um caminho mais eficaz no \u201cengate do privado e do p\u00fablico, do afeto e da raz\u00e3o\u201d, ao \u201carticular o pessoal com o social, o interesse com a pol\u00edtica\u201d. Essa articula\u00e7\u00e3o propiciaria uma vida social mais \u201cbarata\u201d, mais atraente e poss\u00edvel para agentes interessados. O pensador destaca tratar-se de um \u201ctrabalho positivo\u201d, que consiste em tornar barata a vida p\u00fablica, em desonerar a vida social. Constru\u00ed-la com base na virtude \u00e9 ineficaz: poucos s\u00e3o os virtuosos. O pre\u00e7o da liberdade \u2013 de uma liberdade que no passado romano ou no futuro moderno, no s\u00e9culo XVIII, se chamar\u00e1 \u201crepublicana\u201d \u2013 agora se mostra excessivo. Da\u00ed que seja preciso construir resultados aceit\u00e1veis a menor custo. Isso se consegue investindo-se nas paix\u00f5es, para Hobbes e Espinosa, ou, no caso de Mandeville, mais explicitamente nos v\u00edcios privados.\u00b9 Em outras palavras, a compaix\u00e3o e a solidariedade n\u00e3o atingem significativamente nossos graves problemas sociais, n\u00e3o apenas porque esses problemas s\u00e3o estruturais, mas porque essas virtudes morais em nossos tempos s\u00e3o muito raras e custosas e geram poucos benef\u00edcios. Traduzindo: quem consegue trabalhar o dia inteiro e nas horas extras e finais de semana ainda trabalhar para melhorar a vida dos outros? Quem aproveita suas f\u00e9rias para se dedicar a uma comunidade carente? Poucos. A solidariedade \u00e9 essencial, em algumas ocasi\u00f5es pode ser salvadora, mas tem um alto custo para o indiv\u00edduo e n\u00e3o produz resultados muito significativos e duradouros. Tomando a liberdade de traduzir o racioc\u00ednio do fil\u00f3sofo para nosso prop\u00f3sito, dir\u00edamos que fazer um bem social como neg\u00f3cio seria fazer esse bem ser algo mais racional, menos custoso do ponto de vista do indiv\u00edduo interessado em melhorar o mundo. Fazendo um bem atrav\u00e9s de uma empresa, que precisa vender e se sustentar, me dedicarei exclusivamente a isso, terei retorno financeiro, n\u00e3o precisarei sacrificar meu tempo livre nem me debater com minha consci\u00eancia sobre uma sociedade melhor, uma vez que estarei fazendo algo por uma sociedade melhor. \u00c9 interessante notar em empreendedores sociais um aparente ofuscamento da sensibilidade social, e da parte de desconfiados a suspeita de tratar-se de pessoas aproveitadoras, exploradores de pobres. Na verdade, trabalhar contra as desigualdades \u00e9 parte da rotina de quem se lan\u00e7a em um neg\u00f3cio social, ent\u00e3o os empreendedores podem se dar ao \u201cluxo\u201d de ofuscar em si mesmos a indigna\u00e7\u00e3o, a frustra\u00e7\u00e3o, o mal-estar com nossa pobreza. Eles est\u00e3o engatando seus interesses em causas sociais e buscando canalizar uma paix\u00e3o investindo nela, fazendo dela um neg\u00f3cio. Dessa forma \u00e9 interessante entender a observa\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo de que esse engate torna a vida social mais \u201cbarata\u201d, ou seja, quem faz essa articula\u00e7\u00e3o passa a suportar mais facilmente os sofrimentos de viver em um pa\u00eds t\u00e3o desigual, na medida em que trabalha, dedica a maior parte de seus dias e esfor\u00e7os para diminuir essa desigualdade e obt\u00e9m um retorno material por isso. O pessoal, o privado, o interesse do empreendedor est\u00e1 colocado de duas formas: ele quer sofrer menos, correndo inclusive o risco de parecer algu\u00e9m que explora a pobreza, e quer ganhar o seu. Os \u201cv\u00edcios privados\u201d est\u00e3o assumidos: o interesse pelo dinheiro, pelo lucro, pelo sucesso, e o interesse por sua pr\u00f3pria paz de consci\u00eancia, por n\u00e3o sofrer tanto a culpa ou o inc\u00f4modo de ser um privilegiado em uma sociedade t\u00e3o desigual. No momento em que esses \u201cv\u00edcios privados\u201d s\u00e3o canalizados para um trabalho social, podemos ser mais eficazes, \u201cconstruir resultados aceit\u00e1veis a menor custo\u201d. Construir vida social com base em interesse, e n\u00e3o em virtude, pode dar mais resultado. Do ponto de vista de moradores de \u00e1reas pobres, para quem o acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos \u00e9 muito dif\u00edcil ou inexistente, o investimento virtuoso, descomprometido, volunt\u00e1rio na vida p\u00fablica \u00e9 ainda mais custoso. Aqui interessa uma observa\u00e7\u00e3o recorrente de empreendedores de neg\u00f3cios de reforma em favelas e periferias: o morador que tem acesso a uma reforma de qualidade em sua casa passa a se preocupar mais e querer cuidar de um espa\u00e7o externo \u00e0 sua casa. Ele projeta o cuidado com sua casa para fora. Atrav\u00e9s de um benef\u00edcio privado ele percebe o espa\u00e7o p\u00fablico mais pr\u00f3ximo, mais acess\u00edvel, mais perme\u00e1vel \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o. Assim podemos intervir tamb\u00e9m em outro problema observado pelo mesmo autor, que \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o entre as no\u00e7\u00f5es de \u201csociedade\u201d e \u201csocial\u201d em nosso pa\u00eds: \u201co social diz respeito ao carente; a sociedade, ao eficiente.\u201d\u00b2 Atendendo ao interesse privado de quem normalmente \u00e9 visto como mais fraco, que mais sofre as injusti\u00e7as, podemos tornar \u201cmais barata\u201d sua vontade de participar e melhorar o mundo l\u00e1 fora, pelo simples contraste entre uma cozinha nova e agrad\u00e1vel e um beco descuidado. Uma a\u00e7\u00e3o decorrente da\u00ed, de uma percep\u00e7\u00e3o de que minha bela casa merece um acesso melhor, \u00e9 mais prov\u00e1vel do que pela conscientiza\u00e7\u00e3o de que o beco \u00e9 p\u00fablico. Oferecendo um servi\u00e7o de qualidade a lares e fam\u00edlias desacreditados, vendendo e dando cr\u00e9dito a quem a \u201csociedade\u201d costuma fechar portas e janelas, enfim, se interessando pelos mais pobres, e n\u00e3o apenas se envolvendo ou solidarizando com eles, os neg\u00f3cios sociais rompem com o estigma de uma popula\u00e7\u00e3o que, por viver em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, n\u00e3o pode pagar, n\u00e3o pode negociar, n\u00e3o pode contratar, n\u00e3o pode se mexer e est\u00e1 condenada a viver \u00e0 espera de aux\u00edlios e socorro, principalmente do Estado. S\u00e3o bem conhecidas a import\u00e2ncia e as enormes dificuldades, o alto custo do reconhecimento e do tratamento p\u00fablico de favelas e popula\u00e7\u00f5es pobres das cidades brasileiras. A defini\u00e7\u00e3o legal dessas \u00e1reas (ZEISs) afirma que s\u00e3o \u201cespeciais\u201d e de \u201cinteresse social\u201d, mas sabemos que as interven\u00e7\u00f5es e programas voltados para essas \u00e1reas custam a se sustentar e muitas vezes se perdem rapidamente. Talvez falte a eles mais articula\u00e7\u00f5es com outros interesses, especialmente interesses pessoais de moradores. 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